Opinião:Melhores Gestores fazem um melhor País

A má gestão pode alterar a vida das pessoas, das empresas e do país. Nos últimos anos provou-se isso mesmo quando fomos confrontados com casos de justiça, como o BPN e o BES. Por isso mesmo, mas não só, debater o grau da qualidade da gestão feita em Portugal, e examinar os princípios que regem esta disciplina, torna-se ainda mais relevante para a economia e o país.

 

Gerir empresas é uma tarefa desafiante e esgotante, que requer persistência, resiliência e abertura de espírito e vontade de partilha e absorção de conhecimento. Obriga a saber lidar com o risco e a imprevisibilidade. “Gerir é otimizar contributos diversos. Gerir é a arte de materializar esses contributos diversos em bens e serviços, colocando-os no mercado com rentabilidade sustentável”, como afirmou Esmeralda Dourado, empresária com longa carreira como gestora, nomeadamente à frente da SAG, e que integra o Fórum de Administradores e Gestores de Empresas. Foi precisamente este fórum que ontem realizou o I Congresso de Gestores Portugueses. Em pleno século XXI é curioso que se realize só agora, em 2017, o primeiro congresso dos gestores, protagonistas ativos na economia e na gestão do país, mas é de louvar a realização deste evento que foi capaz de juntar muitos dos executivos que fazem crescer o produto interno bruto (PIB) para debater um tema tão relevante como a gestão. Espera-se que tenha sido dado o pontapé de saída de um movimento associativo ou pelo menos um movimento agregador dos gestores.

 

Acredito que melhores gestores farão um país melhor. São precisos executivos com mais ética, que respeitem as regras de compliance e de corporate governance. Por isso mesmo, A Ética na Gestão em Portugal foi um dos painéis em destaque neste fórum, do qual saíram duas notas relevantes: 1) é preciso adotar, e acima de tudo cumprir, um código de ética e encará-lo como competência determinante para o futuro das organizações; 2) os critérios de escolha dos elementos que formam os conselhos de administração, bem como os requisitos necessários para a escolha dos administradores independentes, devem ser inatacáveis e é necessário “quebrar com os amiguismos no processo de seleção e recrutamento”, ouviu-se no fórum.

 

Talvez esses “amiguismos” ajudem a explicar por que a grande maioria dos gestores em Portugal continua a ser do sexo masculino (68%), segundo dados da Informa D& B. As mulheres continuam sub-representadas na liderança e na gestão das empresas, apesar do relativo aumento na gestão (+2,3 pp) e liderança (+5,7 pp), entre 2011 e 2016. A presença feminina em cargos de liderança atinge o seu máximo nas microempresas, com 29%, e o seu mínimo nas grandes empresas, onde apenas 8% têm liderança feminina. São as empresas com liderança feminina que tendem a privilegiar uma maior diversidade de género nas equipas de gestão, com 78% de equipas de gestão mistas, prova o mesmo estudo. Pelo contrário, líderes masculinos tendem a constituir equipas de gestão exclusivamente masculinas (53%). O desequilíbrio de género é ainda grande e nas funções da direção-geral das empresas estamos a falar de 90% dos cargos ocupados por homens.

Se há muito a fazer pela profissionalização da gestão, há igualmente muito a fazer pela paridade nos cargos de topo da gestão das organizações. Fica a dica para o debate do II Congresso de Gestores.

 

Artigo de Opinião de Rosália Amorim, Diretora Editorial do Dinheiro Vivo, publicado dia 29 /11/2018.

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